O problema da objetividade no jornalismo já foi examinado por inúmeras perspectivas, sobretudo a filosófica, a ética, e a semiológica. Entretanto, a economia política oferece um ferramental conceitual e teórico-metodológico capaz de situar a objetividade como um parâmetro da produção jornalística e uma estratégia do capital para aperfeiçoar a forma-mercadoria da notícia. Os elementos que constituem esse ferramental podem ser encontrados no arcabouço da crítica à economia política (NIKITIN, 1997). Entretanto, os elementos para a crítica à economia política do Jornalismo superam a mera descrição dos fatores produtivos e das forças de produção envolvidas nas rotinas das empresas jornalísticas – e, cada vez mais, também dos produtores autônomos precarizados, como jornalistas free-lancers, fotógrafos, assessores de imprensa e designers.
O principal problema de pesquisa aqui é a necessidade de compreender a objetividade jornalística como um imperativo econômico na imprensa e, particularmente, no setor das agências de notícias, condicionado pelo modelo de negócios da distribuição em larga escala e pela configuração da informação-mercadoria, forma intermediária da produção dessas empresas.
Por meio de uma revisão crítica da literatura em três idiomas (inglês, espanhol e português), contrastando autores e trabalhos de matrizes epistemológicas positivistas e liberais (como a chamada Economia de Mídia e a ciência do Jornalismo em sua vertente “administrativa”), de um lado, e do pensamento crítico (a Economia Política da Comunicação e, em particular, a Economia Política do Jornalismo), de outro, o trabalho percorre o que já se produziu de reflexões sobre a objetividade jornalística como fator para produção de valor para produzir uma síntese conceitual. Em seguida, busca situá-la no contexto das agências de notícias, cujo histórico modelo de negócios é a distribuição atacadista de informação para clientes em caráter intercorporativo (business-to-business ou B2B), atendendo a demandas do capital pela circulação de informação-mercadoria.
O artigo recupera o debate na literatura sobre a objetividade jornalística, ressaltando argumentos de ordem filosófica, semiótica e ética, para em seguida apresentar a perspectiva da crítica à economia política, pela qual a objetividade jornalística se configura como um imperativo do modelo de negócios da imprensa, sobretudo dos distribuidores atacadistas de informação-mercadoria (AGUIAR, 2018), como são as agências de notícias e os serviços de redifusão (syndication) de textos e paratextos jornalísticos. O argumento central aqui é que a objetividade jornalística deve ser reformulada como um condicionante econômico para a maximização da circulação, em vez de meramente um ideal ético ou epistemológico. Abordar essa questão mobiliza teorias econômicas fundamentais sobre notícias, evidências empíricas robustas sobre a demanda do consumidor por parcialidade e dados críticos sobre a rejeição seletiva de notícias.
Ao fim, o trabalho propõe abandonar o mantra do “mito da objetividade” ao despir objetividade de sua compreensão teleológica (como se fosse uma meta inalcançável) e compreendê-la como um imperativo econômico condicionado pelo próprio processo de produção, circulação e consumo. Conclui-se que a objetividade jornalística não é um “mito” por não ser um patamar a ser alcançado, mas um parâmetro processual adotado como referência ao longo do processo de produção da notícia.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)